quarta-feira, 26 de agosto de 2009

História da China

Highway to Nowhere by Vidó..


Émerson sempre gostou de escrever. Adorava a redação na escola, estórias imaginárias e até letras de músicas. Depois que comprou um violão do amigo Rubens, de quem havia aprendido a tocar ainda que rusticamente, dedicou-se mais às letras de canções que criava e sua empolgada imaginação estendia-se também à melodia.
Mas apesar de fazer o que gostava, quando chegou aos 17 anos, Émerson percebeu uma sutil cobrança dos seus pais, no sentido de arranjar trabalho. Apesar de ter tido raiva no início (e durante), ele via que dentro dele mesmo havia uma cobrança, não apenas de ganhar dinheiro, mas de com isso poder comprar coisas que queria e ajudar os pais.
Sua irmã arranja-lhe um emprego em um supermercado.
Ele ficou feliz e apesar de não conseguir administrar o dinheirinho que ganhava, sentia-se satisfeito por poder levar uma vida um pouco mais independente. Fez 2 anos, 3 anos... O violão ainda lhe acompanhava, mas bem longe da época em que ensaiava diariamente apenas para... ninguém. Simplesmente saber tocar e cantar no tom já lhe satisfazia nessa época.
Aos poucos ele começou a ficar entediado, mas os pais, a irmã, os colegas e principalmente a necessidade, faziam-lhe ficar e acordar bem cedo aos domingos para trabalhar.
Chegou aos 5 anos de empresa. Receber o PIS não foi um estímulo na mente de Émerson, que havia mudado de função, mas que continuava se estressando, segundo ele, desnecessariamente.
Ele ficou enraivado, e lembrou do amigo Rubens, que há algum tempo não via, mas que segundo Vick (excêntrica amiga de ambos) estava muito bem, inclusive materialmente, a despeito da época em que tocava em assuntos como zen e meditação.
Pensou em levar uma notícia louca para Rubens: Faltou no domingo e na terça e não deu outra, foi mandado embora da empresa. Sem nenhum remorso, ele vai no apartamento que dividia com duas primas e o irmão, pega o violão e algumas letras e se mete a visitar Rubens.
Chegando lá, é bem recebido na boa casa de Rubens, que havia casado. Piadas e resenhas divertem os amigos e Cíntia, a esposa anfitriã, que aos poucos descontraía-se com a presença de Émerson. Bebem café com sequilhos e vêem um filme legendado antigo que Rubens coloca no DVD.
A certa altura Émerson conta sua a história no que chamou de trabalho forçado, cita alguns episódios e por fim o último - o da demissão. Tinha um dinheirinho a receber na empresa e resolvera que aquele violão, comprado naquela época remota a um preço de compadres, seria seu meio de vida:
- E quero fazer como você, Rubão, crescer na vida fazendo o que gosta, afinal só se consegue alguma prosperidade quando o nosso trabalho é empolgante e divertido.
Rubens sorriu demoradamente das palavras do amigo e disse:
- Quem dera velho, tô trabalhando em banco a 3 anos e não aguento mais. Todos os dias penso em sair de lá.
- E o violão?
- Ihh... Acho que nem sei mais cara. Tá faltando 2 cordas, já fazem alguns anos (risos)
Émerson não riu.
Um silêncio ameaçava surgir até que Rubens diz atravessadamente:
- Casou não cara? Só cumendo queto?
Rubens derrete-se com o humor do velho amigo que permanecia impagável:
- Pois é, careta, tô nessa.
- Sorte sua! Diz Rubens.
Cíntia não consegue prender o sorriso da pilhéria do companheiro e a convesa vai até a noite.

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Émerson não pensou mais naquelas ideologias que o moveram até a casa de Rubens, e, assim que recebeu última parcela do seguro-desemprego foi chamado por um amigo do seu tio para trabalhar em uma lan house ele tinha acabado de inaugurar. Ele, empolgado aceitou e adorou o novo emprego. Descobriu que a internet poderia ser uma boa companhia, diferente daquela outra que conhecia à tempos: o tédio.

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Depois de sair do banco, Rubens vive um dilema: Sua mulher recebe uma ótima promoção no trabalho e sobrou para ele ficar mais em casa. Encarou e não se arrependeu. Além dos trabalhos domésticos, sobrava tempo para os filmes que adorava, para andar de bicicleta (estava cada vez mais com preguiça de tirar o carro da garagem) e voltou a pegar no violão e criar alguma coisa.

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Trabalhando muito mais do que a carga hora pré-definida, Émerson ganha a confiança do dono da lan house, que abre uma nova, com bar, lanchonete e conveniências, e convida Émerson para gerenciá-la. Ele aceita e combina não trabalhar nos sábados e domingos, pois queria se espreguiçar nestes dias.

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Apesar do ótimo emprego, Cíntia também passa a reclamar muito. Rubens, que vivia de um apartamento alugado comprado com o dinheiro da recisão e de alguns trabalhos de designer que fazia em casa (tinha aprendido na intenet), convida a esposa para acessorá-lo, afinal, ela não precisava mais preocupar-se tanto com dinheiro, pelo menos por algum tempo.
Nem precisou que Cíntia fizesse nada, no dia seguinte ela foi demitida. Alegaram que ela estava se estressando muito com clientes e precisava descansar um pouco do trabalho. Ela adorou.
Viveu os primeiros meses intensamente, o que muito divertia o esposo.
Dedicou-se também aos trabalhos gráficos e conseguiram se manter.

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Vick ( a amiga excêntrica de ambos) casou-se com um ex-artista de rua que conseguiu emprego numa rádio. Sua criatividade em relação à publicidade conquistou os funcionários da rádio, onde ele conseguiu cada vez mais espaço.
Ela, que por muito tempo tinha procurado uma pessoa legal para ter consigo, orgulhava-se dele, por sua personalidade e pela sua incrível capacidade de lhe fazer rir e lhe dar prazer. Rubens e Émerson faziam parte da memória de Vick, e ela gostava de saber que o homem que dividia a cama e as contas com ela, era uma pessoa criativa e amável, e a amizade intensa com aqueles dois, segundo ela, tinha-a ajudado a arranjar um cara legal.

Observação: Este texto iria terminar em "Émerson não riu", mas continuou.

Foto: Vidó.

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